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Quando Christopher Nolan anunciou que adaptaria o maior épico de Homero para as telonas, a expectativa foi parar no teto. A Odisseia (2026) chega aos cinemas entregando exatamente aquilo que se espera de um blockbuster com a assinatura do diretor: uma escala grandiosa e um domínio técnico impecável. É um filme denso, e como estamos falando de uma obra baseada na mitologia grega, é perfeitamente compreensível (e até culturalmente necessário) que seja um longa extenso. Tudo na mitologia é muito complexo e amplo; não tem essa de querer resumir uma epopeia dessas em poucas horas.
Vamos tirar o óbvio do caminho: a parte técnica é um absurdo. E que fique muito claro, os visuais e toda a concepção visual da coisa são de cair o queixo. Nolan usa suas características mais marcantes na direção, a tensão constante, o uso do silêncio ensurdecedor e as viradas de perspectiva. A história casa muito bem com o estilo megalomaníaco do diretor.

Todos os elogios possíveis à atuação de Matt Damon como Odisseu. Ele carrega a exaustão, a culpa e a astúcia do personagem nas costas com maestria. Do outro lado, temos Anne Hathaway entregando absolutamente tudo como Penélope. A imponência dela como rainha é, de longe, um dos pontos mais altos do filme. É fascinante vê-la tomando as rédeas do próprio destino, orquestrando jogos políticos e resistindo psicologicamente àquele bando de pretendentes folgados e predatórios que invadiram sua casa. Hathaway confere a Penélope uma dignidade afiada; ela não é uma mulher que apenas espera, é uma governante lutando para manter um reino de pé.
Porém, é no núcleo familiar que a ilusão se quebra. Apesar de o elenco parecer uma família super engajada e unida nas entrevistas de divulgação, na tela a história é outra. Senti muita falta de uma conexão real do personagem do Tom Holland (Telêmaco) tanto com a Anne quanto com o Matt Damon. Sim, é justificável que haja um distanciamento, já que ele é o filho que não conheceu o pai e cresceu sem ele, mas eu esperava muito mais entrega. Ficou claro e bem perceptível o abismo de atuação: a Anne, sendo a veterana que é, entregou muita emoção, enquanto o Tom, que já tem uma bagagem – mesmo que não do mesmo nível, deixou a desejar e entregou algumas vezes uma performance engessada. O reencontro entre Telêmaco e Odisseu, que deveria ser o clímax emocional de toda a epopeia, soa oco. Você simplesmente não sente aquele impacto que deveria amarrar a relação familiar.
Elogios também para Robert Pattinson, apesar de sempre interpretar o mesmo cara, só mudando o figurino e adicionando um pouco daquela personalidade excêntrica e engraçada dele. Claro, ele fez Batman, Crepúsculo e outros filmes que exigiram tons um pouco diferentes, mas no fundo, é sempre um traço muito forte da própria personalidade dele que assume o controle.

Onde o filme realmente brilha no roteiro é na forma como lida com as contradições da jornada de Odisseu. É angustiante acompanhar toda a caminhada dele. O longa é genial ao escancarar a hipocrisia dessa guerra. Vemos Odisseu carregando o broche de Atena no bolso, pedindo proteção à deusa a todo momento, enquanto, ao mesmo tempo, suas tropas matam e violam um povo que também era crente nela.
O impacto cinematográfico da cena em que cortam a cabeça da estátua de Atena é colossal, e Nolan relaciona isso brilhantemente com o fato de Odisseu carregar o símbolo dela consigo. É o puro retrato da barbárie travestida de glória.

E falando nela, o uso de Zendaya é um dos grandes triunfos narrativos da obra. Ela tem pouco tempo de tela como Atena, mas o seu impacto invisível é avassalador durante toda a projeção. O filme propõe uma leitura madura e fascinante do mito: apesar de acompanharmos a jornada sangrenta e exaustiva de Odisseu, enxergamos tudo através da perspectiva de que é uma mulher, a deusa da sabedoria e da estratégia, decidindo e guiando um homem até o destino final dele. Ou melhor, conduzindo-o exatamente até onde ela acha que ele deve chegar para aprender a lição.
Veredito
A Odisseia (2026) é um filme majestoso que peca pelo contraste. Enquanto a jornada mitológica, a crítica aos espólios de guerra e a construção visual são um deleite para os fãs de cinema, a falta de química no núcleo familiar principal esfria um pouco a experiência. Um ótimo filme, sem dúvidas, mas que navega melhor pelas águas da filosofia do que pelas correntes das emoções humanas.
Nota: 3/5 ⭐⭐⭐
