Fazer um documentário sobre um dos maiores ídolos da história do futebol mundial parece, à primeira vista, um caminho fácil. O risco de cair na mesmice daquela “sequência de cabeças falantes” exaltando lances geniais é imenso. Mas “Zico, o Samurai de Quintino”, sob a direção afiada de João Wainer, foge completamente dessa armadilha. Em vez de um compilado esportivo tradicional, o que chega aos cinemas é uma obra híbrida, intimista e profundamente humana.

O Fim do “Padrão de Entrevista” e o Toque de Ficção
O grande diferencial do filme de Wainer é a sua estrutura. O diretor aposta no que chama de “não-ficção”, flertando com a linguagem do cinema narrativo para recriar relações, emoções e histórias. O documentário abandona o formato engessado de perguntas e respostas em estúdio para investir em situações interativas e dinâmicas. O resultado é um mergulho em que a vida de Arthur Antunes Coimbra parece, por vezes, um roteiro de ficção, afinal, algumas das jogadas e vivências do Galinho realmente parecem fora da realidade. É um frescor visual que o gênero precisava desesperadamente.
O “Nós” em uma Era de “Eu”
Se no campo Zico foi majestoso, fora dele o que rouba a cena é a sua visão de mundo. Em tempos onde o individualismo grita e as estrelas do esporte vivem na era do “eu, eu, eu”, o filme nos relembra da essência do ex-jogador: a filosofia do coletivo.
A humildade de Zico não é uma pose para as câmeras; é o alicerce de quem ele é. A narrativa constrói perfeitamente como sua trajetória sempre foi guiada pela amizade, pela ajuda mútua e por um senso de comunidade que começou no subúrbio carioca e se expandiu para o mundo. Ele não é apenas o craque que resolve sozinho; ele é a engrenagem que faz o todo funcionar melhor.
A Força Feminina e o Alicerce Familiar
Um dos maiores acertos e momentos de maior sensibilidade do documentário é o destaque dado às mulheres da vida de Zico. O filme deixa claro que o pilar que sustentou a genialidade do camisa 10 sempre foi a sua família. Ao revisitar álbuns de fotografias guardados por décadas, a produção nos apresenta relatos afetuosos e inéditos que mostram a importância vital de sua mãe, sua esposa e suas irmãs. Elas são o eixo emocional do filme, provando que o ídolo blindado pelas glórias é, na verdade, um homem ancorado pela força feminina ao seu redor.

O “Spirit of Zico” e a Conexão com o Japão
E, claro, não haveria o “Samurai” sem o Japão. O filme explora brilhantemente a conexão quase espiritual de Zico com o país oriental, onde passou 22 anos, superando os 20 anos dedicados ao Flamengo. O documentário revela como o subúrbio do Rio forjou o talento, mas foi a cultura japonesa que espelhou seus valores internos. A disciplina, o respeito hierárquico e a honra que os japoneses tanto prezam encontraram morada perfeita na personalidade do brasileiro.
Veredito
”Zico, o Samurai de Quintino” não é um filme apenas para flamenguistas ou fanáticos por futebol; é um estudo de personagem fascinante sobre o que significa ser verdadeiramente grande. Com imagens de arquivo belíssimas (como o famoso caderninho de anotações de gols), uma direção criativa de João Wainer que subverte o documentário padrão e um coração do tamanho do Maracanã, a obra é um tributo definitivo. É emocionante, inspirador e, acima de tudo, humano.
Se você quer se emocionar com essa história e entender o que realmente significa o “Spirit of Zico”, a espera está quase no fim. O documentário “Zico, o Samurai de Quintino” tem sua estreia oficial marcada para chegar a todos os cinemas do Brasil na quinta-feira, 30 de abril de 2026.
Enquanto o dia não chega, já dá para sentir um pouco do que o diretor João Wainer preparou. Confira abaixo o trailer oficial do filme divulgado pela Downtown Filmes e prepare o coração:
Nota: 5/5 ⭐
